Se minha lixeira falasse, ou sobre a ofensa de um tonto da rua Síria




No sábado de manhã, final de Abril, saí cedo com a Bellinha e ela fez caquinhas pelo caminho por duas vezes. Como eu costumo andar prevenido, nas duas vezes eu recolhi com saquinhos de papel que eu sempre trago de Santos, e estes depois são acondicionados em sacolinhas plásticas de supermercado. Ou seja, cocô de cachorro muito bem embalado. Se alguém abrir pensando que é algo de comer, sinto muito! Em ambas as vezes que a cadela defecou, calhou de eu deixar a sacolinha com dejetos numa lixeirinha em frente a uma casa na Rua Síria, por onde desci em direção ao Supermercado Pirâmide.

Na volta do supermercado, foi quando a Bellinha fez cocô pela 2ª vez, e como eu por coincidência estava passando justamente próximo à mesma lixeirinha, peguei a sacolinha e dirigi-me a ela. Esta lixeira já contava com um galão plástico de 5 litros e outros sacos deixados, pois hoje é sábado, e dia de recolha de lixo no bairro onde moro. Porém neste momento estavam dois homens saindo de um automóvel estacionado em frente à casa que tem esta lixeirinha instalada logo em frente. Pareciam pai e filho, um ligeiramente mais velho que o outro. Pus a sacola plástica sobre a lixeira, e o mais novo, que aparentava entre 30 e 40 anos, disse algo como: “ai que vontade de matar alguém!”..., enquanto o mais velho apenas observou e nada falou. Imaginei: se este sujeito estivesse armado, capaz de eu levar um tiro. E a troco de nada, só por ter posto duas sacolinhas de supermercado devidamente fechadas na lixeira dele, considerando que ele pudesse ter visto quando eu deixei uma sacolinha na ida ao supermercado.

Eu não esperava por uma agressão indireta, apenas por me utilizar de uma lixeira que está instalada no passeio público. Nem mesmo cogitei que eles poderiam considerar como um objeto de uso particular, um acessório instalado bem no meio da calçada. Já há alguns metros de distância, indignado se aquele comentário maldoso e ofensivo havia sido de fato dirigido a mim, segui olhando em direção a ambos, e a pessoa voltou a falar: “e ainda fica olhando torto...”   Pois é, uma pessoa que faz comentários indiretos (ou tortos também, como queira), sem coragem pra chegar na minha cara e dizer algo como “olha, esta lixeira é da minha família e você não pode usar”, falando de alguém olhando de lado. Ele não dirigiu-se a minha pessoa pra receber uma resposta direta, nem o conheço, nunca o vi antes que eu me lembre.

Fui embora, segui meu caminho, sentindo me atingido por uma ofensa totalmente desnecessária, mas quando um não quer, dois não brigam. E o que eu tenho a ver com a guerra deste indivíduo?  Eu não sujo, nem deixo suja a calçada de ninguém, muito menos a lixeira. Porém fiquei pensando em quantos problemas alguém pode ter por haver simplesmente instalado uma lixeira em frente à sua casa. Com tantas pessoas em situação de vulnerabilidade e até os cães de rua, que muitas vezes debulham os sacos de lixo em busca de recicláveis e alimentos, uma lixeira pode se converter num verdadeiro tormento, e o que seria pra organizar e facilitar a coleta do lixo, tornar-se uma fonte de sujeira. Como na frente da outra casa onde eu morava, na rua Lima Machado, nas poucas vezes que coloquei o  lixo muitas horas antes do horário de recolhimento, e este lixo foi totalmente revirado, debulhado, tendo às vezes os sacos de lixo sido furados com o conteúdo mal cheiroso se espalhando. O trabalho de limpar e reensacar o lixo que já estava acondicionado...  Então imaginem a saga de uma lixeira na frente de uma casa, e todo trabalho pra mantê-la limpa. 

Pensando nisso compreendi porque alguém pode ficar com vontade de “matar alguém”, mas ainda assim foi totalmente desnecessário e ofensivo este comentário pra um estranho. Eu não sou usuário daquela lixeira, e coloco meu lixo em frente à minha casa nos dias e horários certos de coleta, ou seja, terças, quintas e sábados, já que onde moro não existe recolha diária de lixo. Busco separar o lixo reciclável também, que é recolhido apenas nas quinta feiras. Indignado com a ofensa, fui buscar na internet se havia alguma lei municipal aqui de São Vicente, orientando sobre o uso de lixeiras em via pública. Encontrei uma recomendação pra que estas fossem instaladas em frente à bares, lanchonetes e comércios de grande movimentação, pra uso geral. 

Não encontrei nada em São Vicente, somente em Curitiba, uma lei municipal que proíbe a instalação sem autorização de lixeira em meio à calçada, e quando em desacordo solicitam a retirada do equipamento punindo a negativa com multas. A justificativa é que, embora a lixeira tenha uso importante numa residência, quando instalada fora dos limites desta residência, em meio a uma calçada, ela atrapalha a mobilidade de qualquer pessoa que queira utilizar-se da calçada, e no caso de um cadeirante ou deficiente, dificulta ou mesmo impede a passagem por aquele trecho. E encontrei também uma orientação de que lixeiras, vasos de plantas, bancos, cadeiras, grades, floreiras, cinzeiros e etc, precisam de um Termo de Permissão de Uso (TPU) expedido pela Prefeitura, pra que sejam colocadas nas calçadas.

A rua Síria parece ter baixa movimentação de veículos, assim a pessoa pode andar pela rua ao lado da calçada, sem grandes riscos, pelo menos em todas as vezes que passei por lá foi o que me pareceu.  Mas ainda assim, do meu ponto de vista, segue sendo egoísta alguém que instala um acessório no meio da calçada, e julga que o uso deste equipamento será exclusivamente pra sua família. Oras, a pessoa está instalando algo no meio da calçada pública! Ela pode se utilizar do espaço público pra instalar seu equipamento, mas as pessoas não podem se utilizar corretamente deste equipamento?! Não me parece lógico este raciocínio.

Aí o sujeito munido de todas desaventuranças da sua lixeira instalada em frente à sua casa ainda tece comentários psicopatas e cretinos a qualquer um que se digne a utilizar-se desta lixeira, e pronto, foi declarada a guerra das lixeiras!

É típico de um ariano cabeçudo feito eu uma vontade quase irresistível de passar lá diariamente, e tornar me usuário constante daquela lixeira, em frente à casa daquele ser tosco e miserento. Mas eu não mataria e nem morreria por uma lixeira! Declarar guerra então, ao ser estúpido da rua Síria seria igualmente compactuar com a sua estupidez! Pior é não ter onde colocar o lixo e viver em meio ao lixo. Quando se tem um lugar decente pra colocar o lixo, e pessoas decentes e dignas pra recolhê-lo, isso é bom e a vida pode ser bela, sem guerra e sem conflito!

Pro sujeitinho da rua Síria: se você acha que a lixeira é de uso exclusivo da sua família, instale ela dentro dos limites da sua propriedade. Ou ponha uma plaquinha, algo como: proibido o uso!  Ou melhor ainda, considerando que haja um mínimo de bom senso e civilidade em sua pessoa: mantenha limpa a lixeira!

E pros lixeiros, que são guerreiros pacificadores nesta guerra sem vencedor ou perdedor, meu imenso apreço e agradecimento ao serviço digno e maravilhoso que prestam! E viva os lixeiros!

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