Um sonho, eu e um boneco
Eu havia emprestado uma geladeira a um conhecido, um rapaz jovem. Me lembro de tê-la aberto rapidamente no apto. dele, que ficava no mesmo prédio que o meu, e verifiquei que estava com algumas provisões. Depois, em alguns segundos nós já descemos pra outro apto. no mesmo prédio, e era o apto. da mãe, que estava no local com algumas mulheres, talvez tias ou amigas, costurando. Eu perguntei se o rapaz não precisaria estar adquirindo uma geladeira, quem sabe a minha até, já que é um eletrodoméstico indispensável. A mãe se pôs na defensiva, como se o filho não precisasse de uma geladeira, afinal de contas, vivia num espaço tão próximo de sua mãe e até de seu pai que era separado, e tinha uma outra unidade no mesmo edifício. Imaginei que então ele fizesse suas refeições mais no apto. da mãe ou do pai, do que em seu próprio apto, e estas refeições com seus pais em família certamente eram importantes. Enfim, não me senti animado a seguir com aquele assunto, e onde eu estava numa área aberta, começou a pingar algumas gotas de chuva, que começava a cair aos poucos. Tão rápido como eu entrei ali naquele apto, eu saí à francesa, me aproveitando quando alguém chegou e iniciou outro assunto qualquer.
A escadaria era larga e mal comecei a subir eu vi, no pé da escada, aquele homúnculo que não media muito mais que um palmo. Parecia um boneco de pano, mas se movia perfeitamente como qualquer ser vivente. Aquilo me viu, me fitou diretamente, e sua expressão era algo que me assustava, com os seus olhos bem destacados, sobrancelhas angulosas e grossas e cabelos alaranjados. Não parecia nada além de um boneco, mas seus movimentos não eram os de um ser inanimado. Tão logo ele me viu, começou a vir em minha direção, e o medo cresceu em meu coração. Eu fiquei aterrorizado quando aquele ser minúsculo começou a escalar degraus e vir decididamente ao meu encontro, mas tão grande quanto o meu temor era a minha curiosidade que deteve minha fuga.
Eu não consegui gritar, embora houvesse tentado, e só me sobraram forças pra dizer um tímido “socorro!”, quando aquela criatura minúscula se deteve diante de mim, e enfim pude fitá-la diretamente em seus olhos. O que eu vi no fundo daqueles olhos me deixou transtornado e assustado; quando eu olhei foi como se nossas posições se invertessem, e não era mais eu, um ser humano olhando nos olhos do boneco mas eu como subtraído pra dentro daquele ser, eu fitando meu corpo, eu um pequeno boneco olhando pra meu corpo que nem era mais meu. Em meu rosto embora ainda familiar, notei que na expressão de meus olhos havia traços da maldade que tinha me assustado quando me deparei com aquele boneco horrendo, que havia sugado minha alma.
12/02/2023

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